30/03/2021
atividade síncrona
Texto
Matemática, educação e desenvolvimento social – questionando mitos que
sustentam opções actuais em desenvolvimento curricular em matemática
João Filipe Matos
Universidade de
Lisboa
Faculdade de Ciências
Centro de Investigação em Educação
Resumo
O conhecimento matemático não
existe fora dos modos como é usado, fora dos interesses para os quais é usado e
das razões pelas quais é usado. Do mesmo modo, a educação matemática que é
proporcionada aos alunos não existe fora dos modos, interesses e razões que lhe
estão subjacentes. Nesta comunicação discuto uma perspectiva sobre a educação
matemática em que esta é encarada como fenómeno emergente começando por focar o
que são na minha perspectiva as finalidades da matemática escolar e, através de
exemplos, distinguindo o “ensinar matemática” da ideia de “educar
matematicamente”. Através da identificação e discussão de alguns mitos que
actualmente são vividos na matemática escolar – o mito da neutralidade da
matemática, o mito da competência matemática, o mito da ressonância intrínseca
da formação matemática, o mito da referência e da participação na resolução de
problemas, o mito da investigação matemática na sala de aula – procuro tirar
implicações para o desenvolvimento curricular em matemática em Portugal.
Abstract
Mathematical knowledge does not exist outside
the ways it is used, the aims of its use and the reasons why it is used. In
parallel, mathematics education does not exist out of the reasons behind it. In
this address I discuss a perspective on mathematics education that stresses the
notion of emergent phenomenon. I start focusing the aims of mathematics
education in school and, through example, I stress the difference between
“teaching mathematics” and “educate mathematically”. While I identify and
discuss a few myths that are lived in school mathematics nowadays (the myth of
the neutrality of mathematics, the myth of mathematical competence, the myth of
intrinsic resonance in mathematical development, the myth of reference and
participation in problem solving, the myth of mathematical investigation in the
class – and I try to put forward some implications for the development of
curricula in Portugal.
Este artigo corresponde ao
desenvolvimento de algumas ideias que tenho vindo a discutir publicamente sobre
os caminhos do ensino da matemática em Portugal na sua trajectória de
afastamento progressivo do mundo social em que vivemos e dos seus problemas
actuais defendendo uma perspectiva que assuma a educação matemática como
educação de facto e não como ensino. É dedicado à memória do meu colega Paulo
Abrantes.
Sobre o saber matemática e o
conhecimento matemático
Apesar dos discursos democráticos
que procuram justificar a presença da disciplina de matemática nos currículos
escolares, o ensino da matemática tem tido em muitos países uma função social
de diferenciação e de exclusão. A matemática é tipicamente um mistério para
muita gente e temlhe sido oferecido o papel de juiz pseudo-objectivo, que
decide quem está apto e quem está inapto na sociedade, rotulando e posicionando
as crianças, os jovens e os adultos como aptos ou como inaptos, e por isso tem
servido como um dos guardiões do direito de participação nos processes de
decisão da sociedade. A situação que se identifica na área da matemática não existe
isoladamente daquilo que é um dos papéis da escola[1]
– a selecção e seriação arbitrária dos jovens.
Tal como Torres (2001) afirma,
“nas sociedades capitalistas, a
escola justifica e produz desigualdades. Para este objectivo intervêm diversos
elementos, incluindo percursos escolares, comportamentos racistas, consolidação
de elites, sanções disciplinares, irrelevância das matérias curriculares para a
vida das pessoas, deficiência e falta de eficácia das Escolas. […] a escola
reproduz relações autoritárias, classistas, racistas e patriarcais. Isto […] é
constituído pelo autoritarismo dos pais e o autoritarismo da produção,
distribuição e consumo do conhecimento. O conhecimento em si, e por si, não é
democrático” (p.171-172)
É neste quadro que faz sentido a
discussão do papel do conhecimento matemático na constituição dos cidadãos. E é
neste vértice inevitável que a escola (nos seus diversos actores) tem uma
responsabilidade a assumir. Quando planeamos as actividades lectivas visamos um
certo número de objectivos e metas que são alinhados com aquilo que entendemos
ser o ‘saber matemática’, ‘aprender matemática’, e ser ‘matematicamente
competente’. Este alinhamento com estes (nossos) conceitos é feito a partir da
nossa interpretação dos currículos, dos programas e dos próprios manuais
escolares mas também através do que entendemos ser “aceite e exigido em
matemática” quer pela instituição escolar, quer pela comunidade educativa,
pelos alunos e pela sociedade em geral[2]
. É crucial assumir que a ideia de ‘saber matemática’ é uma construção social
alimentada por diversos quadrantes (nacionais e internacionais), nomeadamente
do mundo profissional, da tradição familiar, dos matemáticos, dos próprios
fazedores de opinião pública, dos formadores de professores, etc.
Existe na minha perspectiva um
conjunto de questões que estão na base (ou pelo menos são simultâneas) à
discussão sobre o que significa aprender matemática: o que é ou pode ser “saber
matemática”? onde “está” o conhecimento matemático? podemos dizer que o
jardineiro que delimita um canteiro circular no jardim espetando uma estaca no
chão, atando uma corda e, uma vez esticada, andando em volta com ela para
marcar o canteiro circular no terreno, sabe matemática? sabe que está a
desenhar usando um modelo matemático (um lugar geométrico em que todos os
pontos estão equidistantes de um ponto fixo)? (e que aconteceria se aquele
ponto de amarração não estivesse fixo mas corresse ao longo de uma guia
rectilínea?) o jardineiro está a pôr em acção um saber matemático? E os nossos
alunos no ensino básico, sabem matemática? o que significa dizer que alguém
sabe matemática?
É vulgar assumir-se
implicitamente que saber matemática significa em si mesmo conhecer factos
matemáticos, e saber usá-los em “novas situações” e saber pensar
matematicamente com esses factos. Se saber matemática inclui saber aplicar a
matemática (o que presume que a matemática é algo bem delimitado e por isso
“distinta do resto”, por exemplo distinta das acções do jardineiro de que
falei), podemos obviamente questionar a possibilidade da continuidade das
práticas matemáticas para outras práticas (e.g. de jardinagem). A chamada
“aplicação de conhecimentos matemáticos em novas situações não matemáticas” é
evidentemente problemática. A questão é que é necessário que exista algum
conhecimento acerca dessas ditas “novas situações” para que se torne possível e
eficaz o uso da matemática[3].
Uma das razões fundamentais
apontadas por diversos autores para se ensinar matemática na escola é o facto
de se querer contribuir para desenvolver nas crianças e nos jovens o pensamento
matemático. Mas o que significa pensar matematicamente? O jardineiro de que
falei pensa matematicamente nas suas acções de jardinagem só nalgumas dessas
acções? Se assumirmos que pensar matematicamente tem que ver com ter um ponto
de vista matemático sobre os fenómenos e as situações, então é a questão reside
em imaginar como desenvolver esse ponto de vista nos alunos; isso implica
necessariamente proporcionar o conhecimento de factos matemáticos mas também a
análise de situações que consideramos tipicamente fora da matemática (sejam
elas consideradas aplicações da matemática, modelação matemática, matemática
realista, investigações, etc).
Desta argumentação decorre que
aprender matemática não pode ser entendido como adquirir conhecimento
matemático (algo que é necessariamente problemático) e demonstrar certas
destrezas no jogo de linguagem em que se transforma tipicamente o trabalho na
matemática escolar. Aprender matemática tem que ser visto como um elemento
residual do envolvimento dos alunos em práticas que envolvam a necessidade da
percepção e do desenvolvimento de um ponto de vista matemático sobre as coisas.
Este posicionamento implica abandonar a ideia de que o professor de matemática
tem como missão “ensinar matemática” aos alunos e, por isso, reconhecer que a
sua vocação deve ser educá-los matematicamente.
A educação matemática como fenómeno emergente
Pensar a educação matemática como
algo que inclui a ideia de que a aprendizagem matemática na escola envolve a
construção de um ponto de vista matemático sobre as coisas, tem implicações a
diversos níveis: (i) definição dos currículos no que respeita a metodologias de
trabalho, áreas temáticas organizadoras das actividades escolares e avaliação
das aprendizagens, e (ii) definição de princípios base da formação de
professores de (educação) matemática. Neste sentido, é fundamental aprofundar a
ideia de educação matemática não como disciplina académica mas como acção ou
fenómeno emergente. Isto implica necessariamente reconhecer que a aprendizagem
não é consequência do ensino, não existe aqui causalidade. Aprender
(matemática) não é algo que se faz quando não se está a fazer outras coisas. Se
é importante procurar criar condições para que ocorram as aprendizagens
matemáticas que queremos promover nos alunos é igualmente importante assumir
que para isso é necessário ter um design nas actividades a propor (ou, noutra
linguagem, uma proposta pedagógica) mas que as aprendizagens não são consequência
desse design – mas sim a reacção dos participantes-alunos ao design.
Este aprofundamento da noção de
educação matemática obriga a pensar a natureza das práticas em que se pretende
envolver os alunos como participantes na escola e a lidar com a dificuldade de
antecipar as aprendizagens que se deseja que ocorram nesses alunos. Em última
análise esta perspectiva decorre de pensar a educação matemática em duas
dimensões complementares que constituem as práticas escolares em matemática:
uma aproximação ao pensar matematicamente e a uma forma de organizar a
experiência incluindo um ponto de vista matemático.
O tipo de agenda que estou a
propor depara com dificuldades decorrentes do facto de se pretender realizar
uma educação matemática em instituições escolares que são essencialmente
fundadas sobre o utilitarismo. E esta situação não se muda por decreto. É por
isso mesmo que continuo a acreditar que a chave das mudanças no ensino da
matemática – e em particular a sua transformação em educação matemática – está
mais na mãos dos professores do que na mão de qualquer Ministério da Educação.
Ensinar matemática ou educar
matematicamente? Ainda as “finalidades do ensino da Matemática”
É hoje aceite entre muitos
professores e formadores de professores de matemática que equacionar o ensino
escolar da matemática (a nível da escola básica, secundária e superior) como a
transmissão de factos matemáticos às crianças e aos jovens, não faz já mais
sentido. Espera-se que no mundo actual os jovens e os adultos sejam capazes de
lidar com situações e problemas que envolvem formas de pensamento e de
resolução de problemas para as quais a preparação escolar tradicional em
matemática já não satisfaz[4].
Sendo verdade que algumas formas
de matemática estão cada vez mais presentes nos fenómenos e nas práticas
sociais, isto é, cada vez mais a sociedade (quer no chamado dia-a-dia quer a
nível profissional) é regulada e formatada por modelos matemáticos complexos, é
também verdade que cada vez é menos necessário conhecer (no sentido escolar) a
matemática que suporta esses modelos. O que se exige cada vez mais às
populações é a capacidade de saber lidar com aqueles modelos, saber
desocultá-los, perceber a sua presença, traduzi-los criticamente e ser capaz de
empreender acções eficazes para os alterar e re-modelar, aprender a ser crítico
relativamente aos modos como esses modelos são aceites na sociedade, perceber
as intenções e as formas como eles são produzidos, etc.
Daqui decorre que o ênfase na
matemática escolar deve ser colocado na educação matemática (dos jovens) e não
no ensino de (elementos de) matemática. No editorial do número temático da
revista Quadrante sobre Educação Matemática e Cidadania (Matos, 2002) comecei a
argumentar que a disciplina de matemática deve ser urgentemente eliminada dos
currículos do ensino básico. A lógica desta argumentação baseia-se na ideia de
que em vez da disciplina de matemática seja criada a disciplina ou área
disciplinar de educação matemática com o objectivo essencial de formar
matematicamente as crianças e os jovens contribuindo para o desenvolvimento de
um ponto de vista matemático sobre as coisas[5].
Isto significa naturalmente que as pessoas precisarão de conhecer factos
matemáticos mas significa também que o essencial da disciplina não será a
matemática mas o seu uso – como um dos recursos estruturantes centrais do
pensamento, da reflexão e da acção. Uma proposta deste tipo seria
necessariamente acompanhada de implicações importantes sobre a avaliação escolar
em educação matemática (avaliação que deixaria obviamente de ser entendida como
sinónimo de classificação)[6].
A principal implicação daquela
proposta (obviamente radical) é que a escola, ao assumir o seu papel como o de
educar os alunos, tire daí as implicações para a área da matemática assumindo
igual e integralmente a educação matemática dos alunos e definindo as suas
finalidades de forma consentânea. Naturalmente que um movimento de alteração
das perspectivas sobre as finalidades da matemática escolar – no sentido de
criar uma cultura de educação matemática visando a participação dos jovens na
construção e sustentação de uma sociedade democrática – tem que ser enquadrado
numa problematização mais alargada da escola e do seu papel na educação dos jovens.
Muitas das questões que aqui
coloco relativamente à matemática escolar poderiam (deveriam) provavelmente ser
colocadas em relação a outras disciplinas ou até a todas elas. Equacionar as
questões da educação matemática de um modo isolado fora de uma discussão das
funções da escola pode trazer o risco de se estar a criar novos modos de
operacionalizar a sua função reguladora em vez do carácter emancipatório que
ela deve assumir.
Uma área disciplinar de educação
matemática inclui como finalidade o desenvolvimento do poder dos alunos e dos
indivíduos em sociedade, quer para ultrapassar barreiras do seu desenvolvimento
em termos de educação e emprego, quer no sentido de aumentar a sua
auto-determinação e o seu envolvimento crítico na cidadania social. A
finalidade última da educação é a mudança social em direcção a uma sociedade
mais justa e mais igualitária; na prática escolar numa área de educação
matemática isto significa o questionamento e argumentação permanente e
sistemática, abrindo espaços de discussão e permitindo (e encorajando) o
conflito de opiniões e pontos de vista, o questionamento das leituras
matemáticas dos fenómenos sociais e da relevância e utilidade dos modelos matemáticos
identificados, e a negociação de objectivos partilhados no desenvolvimento
dessas mesmas práticas escolares.
O que é educar
matematicamente?
Ao distinguir entre ensinar
matemática e educar matematicamente estou a colocar em confronto duas perspectivas.
A Didáctica da Matemática pode ser olhada centrada nas questões do ensino da
matemática e incidindo essencialmente na tarefa de fazer com que os alunos
“aprendam matemática” (entendendo-se que aprender matemática significa conhecer
factos matemáticos em maior ou menor profundidade e ser capaz de os reproduzir,
usar, elaborar sobre eles, derivar outros factos matemáticos). Nesta visão,
educar matematicamente parece ser entendido como fornecer aos alunos factos
matemáticos (oriundos obviamente do campo da prática dos matemáticos) que são
assim recontextualizados na prática escolar num discurso pedagógico vertical. A
argumentação neste posicionamento passa essencialmente pela ideia de que essa
formação matemática ou será útil noutras disciplinas ou será útil alguma vez na
vida. Reconhece-se aqui alguns elementos do que Skovsmose e Valero (2002)
chamam a “ressonância intrínseca” – a crença fortíssima em muitos meios de que
as aprendizagens matemáticas tradicionais farão (algum dia) ressonância no
desenvolvimento pessoal e social das pessoas. Aqueles autores apontam como um
dos maiores erros desta perspectiva o ignorar-se que uma grande parte dos
jovens será tacitamente excluída do acesso a outras formas de conhecimento e a
outras posições e empregos (e portanto nunca haverá hipótese de qualquer tipo
de ressonância).
Uma outra perspectiva sobre a
Didáctica da Matemática entende que a matemática constitui um instrumento que
confere uma dimensão muitíssimo potente aos modelos que a sociedade cria e
adopta e, como tal, a educação deve incluir formas de aprender a lidar com
esses modelos. Uma parte dessas aprendizagens resulta de educar matematicamente
os jovens levando-os a apropriar-se de modos de entender matematicamente as
situações do dia-a-dia[7].
Isto não significa remeter para segundo plano a preocupação com o conhecimento
e uso de instrumentos e ferramentas da matemática mas sim transformar a ideia
de matemática escolar.
Tendo consciência de que não é
viável transformar o ensino da matemática sem alguma continuidade, quero
argumentar que é possível encontrar pontos de entrada para contemplar a
educação matemática dos alunos subvertendo obviamente algumas intenções dos
fazedores de programas escolares e de manuais. Para elaborar sobre esta questão
vou utilizar um exemplo de um problema típico dos livros de texto do ensino
elementar.
O casal Silva pretende deslocar-se do
Campo Grande ao Parque das Nações com o seus dois filhos para visitar o
Oceanário. Como a viagem de autocarro custa €1 por pessoa, quanto irão pagar?
A questão colocada pode ser lida
apenas ao nível da aritmética[8].
A mensagem que tradicionalmente é passada aos alunos é que é preciso descobrir
o método certo para resolver o problema: 4 x €1 = €4. Mas claro que se pode ler
o problema do ponto de vista da questão “quanto deve custar a viagem da família
de quatro pessoas”. Sabe-se que em Lisboa a densidade do trânsito é actualmente
muito grande a qualquer hora durante os dias de semana dado que uma imensa
maioria de pessoas utiliza estritamente o automóvel próprio para se deslocar. E
os autocarros não são tão eficientes a essas horas como seria desejável
sabendo-se que as viagens de autocarro são mais demoradas do que seria possível
se houvesse menos carros particulares. Para ir do Campo Grande ao Parque das
Nações demora-se cerca de 20 minutos se não houver muito trânsito[9].
Se há que encorajar que as pessoas se desloquem mais nos transportes públicos,
então os preços deveriam baixar e os incentivos à sua utilização deveriam ser
maiores. E parece óbvio que uma família de quatro pessoas deveria beneficiar de
uma redução no preço já que constitui uma unidade a valorizar (supostamente)
pela sociedade (quer por se tratar de uma agregado familiar quer pelo simples
facto de viajar e partilhar o lazer em conjunto constituindo assim
eventualmente um exemplo de práticas familiares aconselhadas). A área
disciplinar de educação matemática (no sentido que mencionei) tomaria este
problema de palavras como um ponto de entrada para questões susceptíveis de uma
análise mais global uma vez que os preços e a eficácia dos transportes públicos
e privados numa cidade são elementos que ajudam a definir a mobilidade dos
cidadãos e consequentemente a sua qualidade de vida (elemento naturalmente
essencial na educação dos jovens). Assim, a área temática dos transportes
poderia ser entendida como uma dos pontos essenciais de desenvolvimento do
trabalho num determinado período de tempo. Essencial tornar-se-ia não
simplesmente aprender as regras de cálculo aritmético mas o seu uso (e por
isso, e com isso, aprendendo-o) na análise de uma prática do dia-a-dia:
deslocarmo-nos de um lado para o outro utilizando algum meio auxiliar como o
autocarro. E a expansão desta questão a outros meios de transporte à própria
organização e ergonomia da cidade seria um passo com um abertura a questões
praticamente inesgotáveis (estando os limites onde quisermos que estejam).
Encontrar e lidar com conceitos tradicionais da matemática escolar seria
natural dado que essencial naquela situação (gerada pelo problema de palavras
da família Silva) passaria igualmente a ser o questionamento do modelo de
proporcionalidade que se aplica socialmente de modo quase universal e que
formata imensamente (mas muitas vezes sem consciência real) a forma de pensar
dos humanos[10].
O propósito deste exemplo é
ajudar a pensar na necessidade de abandonar a ideia de que educar
matematicamente os alunos é conduzi-los à ‘aquisição de conceitos e técnicas da
matemática’ enquanto ciência produzida pelos matemáticos. A metáfora da aquisição
de saberes está fortemente ligada à ideia de que a função da escola é
exactamente fornecer ou disponibilizar saberes. Mas uma perspectiva que assume
a participação das pessoas como um elemento chave na construção do
conhecimento, reclama que a função da escola é constituir um campo de
construção de saberes, uma comunidade com práticas próprias (que não se
confundem com as práticas dos matemáticos ou com outras práticas profissionais
e que são essencialmente práticas escolares) que é preciso questionar em função
do tipo de finalidades da educação matemática tal como a formulei.
Coleccionando mitos
Identificar mitos nas práticas
escolares pode ajudar-nos a interrogar situações e opções pedagógicas e assim a
repensar essas mesmas práticas. Trata-se de um exercício de reflexão orientado
para o pôr (-se) em causa, para o ganhar um olhar crítico sobre as nossas
práticas[11].
Introduzo aqui alguns dos mitos que tenho coleccionado para salientar aspectos
necessariamente críticos do ensino da matemática actual.
O mito da neutralidade da
matemática e da educação matemática
Muitas das perspectivas
positivistas sobre o conhecimento assumem (implícita ou explicitamente) que,
embora muitas vezes reconhecido como produto humano, o conhecimento matemático
é completamente separado das pessoas que o produzem, em si mesmo neutro, isento
de valores e objectivo. E, consequentemente, reservam a noção de aprendizagem à
ideia de descoberta de factos matemáticos estáticos, à sua descrição e
classificação. Esta ideia deve ser contrariada. Em primeiro lugar, o
conhecimento matemático é continuamente criado e recriado à medida que as
pessoas actuam e reflectem sobre o mundo não sendo algo fixado de modo
permanente nas propriedades abstractas dos objectos matemáticos. Em segundo lugar,
adquirir conhecimento e produzir conhecimento são dois momentos de um mesmo
ciclo o que implica que o conhecimento matemático é um produto emergente da
acção e da interacção da consciência humana e da realidade. Neste processo
dialéctico de recriar a percepção e descrição da realidade, criam-se práticas
que envolvem aprendizagens de modo natural. Mas isto não significa que estas
práticas sejam neutras. É fundamental reconhecer que o conhecimento matemático
não existe fora dos modos como é usado, fora dos interesses para os quais é
usado e das razões pelas quais é usado.
De modo paralelo, a educação
matemática ou, se se quiser, o ensino da matemática que é proporcionado aos
alunos não existe fora dos modos, interesses e razões que lhe estão subjacentes
(tenhamos ou não consciência delas). A simples leitura dos relatórios do
Ministério da Educação sobre o “sucesso escolar” permite reconhecer (e por isso
obriga a assumir) que a matemática (enquanto disciplina escolar) contribui
fortemente para a exclusão escolar (e, consequentemente, exclusão social em
inúmeras situações) de um número elevadíssimo de crianças e de jovens. Vemos,
ouvimos e lemos esses factos diariamente na imprensa generalista e
especializada e por isso mesmo não podemos ignorar a nossa responsabilidade no
papel de filtro social que foi sendo criado com o ensino da matemática na
escola básica e secundária. Como implicação directa do que referi, não se pode
mais limitar o papel do professor a ensinar matemática. Torna-se essencial
reconhecer a dimensão social, ética e política do ensino da matemática e
assumir que não existe neutralidade nesse ensino. O que isto exige aos
professores de matemática e aos formadores de professores é uma questão que
merece análise própria.
Sobre o mito da competência
matemática (escolar)
A competência matemática escolar
(traduzida pela demonstração de algumas habilidades matemáticas
tradicionalmente escolares tais como recitar as tabuadas ou a regra de
derivação de funções compostas em R) não pode ser confundida com competência
matemática. Ser matematicamente competente na sociedade actual é algo de
caracterização complexa mas implica de certeza capacidades e modos de usar
pontos de vista matemáticos sobre as situações que não é possível aprender a
priori. Considerar que a preparação dos jovens para os tornar matematicamente
competentes corresponde apenas a treiná-los nas dez destrezas matemáticas
listadas no Currículo Nacional de Competências do Ensino Básico (e que serão
este ano testadas nos exames nacionais no 9º ano de escolaridade) é assumir uma
noção de competência matemática que nada tem que ver com o mundo social em que
vivemos.
A questão é que não se pode
equacionar o desenvolvimento de competências fora de um quadro que entenda a
aprendizagem como uma experiência vivencial que faz parte integrante da
participação em comunidades de prática (Wenger, 1998). Mas a participação nas
práticas sociais é algo simultaneamente emergente e intencional que não pode
ser prescrito nem legislado do mesmo modo que não pode ser completamente
planeada, isto é, facilitada ou frustrada. É possível pensar em modos de
enriquecer a atmosfera da comunidade onde se pretende que ocorram determinadas
aprendizagens e as competências de desenvolvam. É neste mesmo sentido que, como
já referi, não se pode entender a aprendizagem escolar como o resultado do
ensino feito pelo professor, não existe tal causalidade entre ensino e
aprendizagem na escola. A aprendizagem ocorre na medida em que os alunos estão
envolvidos em formas de participação em práticas que implicam essas
aprendizagens que são elas próprios elementos integrantes das práticas.
É neste quadro que a competência
matemática não pode ser vista como algo que possa ser pré-definido. A
competência é criada e definida na acção. Por esta razão, os participantes numa
dada prática devem ter oportunidades para actuar as suas competências,
incluindo (i) um sentido de que existe espaço para tomarem iniciativa e
condições para que essas iniciativas se tornem patentes a outros (e.g. criando
ocasiões para aplicar certos skills, criando e partilhando soluções para
problemas específicos, propondo e tomando decisões quer em pequeno grupo quer a
nível mais global), (ii) a compreensão de que existem momentos de dar contas do
trabalho feito (e.g. apresentando o seu trabalho a outros, discutindo,
exercendo e sujeitando-se a uma avaliação crítica por parte dos outros;
identificando diferentes estilos de fazer as coisas e confrontá-las com as suas
próprias tirando daí implicações; criando espaço e disponibilidade que
encorajem a expressão da diferença e integrando estilos e formas de trabalho
diferentes; ajudando a criar pontos de entrada para a negociação e
desenvolvimento de empreendimentos comuns), e (iii) colocando em jogo as
ferramentas matemáticas adequadas, quer em termos de artefactos físicos como de
artefactos conceptuais que ajudem a sustentar a competências como participante
(e.g. conceitos e linguagem que ajude ao desenvolvimento de um reportório
matemático comum partilhado entre os participantes).
Sobre o mito da investigação
matemática na sala de aula
Já referi a minha posição de que
as práticas matemáticas escolares constituem uma recontextalização (no sentido
de Bernstein) de práticas matemáticas cujo campo de produção é exterior à
escola básica e secundária. A escola básica e secundária não produz, não faz
matemática. Alunos, professores e funcionários, pais e encarregados de educação
desenvolvem práticas diversas na escola que têm como objectivo concorrer para
que algumas aprendizagens ocorram. Na especificidade de cada disciplina – em
particular na matemática – os professores e os alunos envolvem-se em práticas
que ocorrem e vivem no contexto escolar (o que significa que são constituídas
pela organização física e espacial da escola, pela sua organização política e
ética) e por isso têm uma natureza essencialmente escolar. Pretender que a
realização de actividades de “investigação matemática” constitui a recriação da
actividade dos matemáticos é um mito. Não só não se trata de investigação (dado
que não tem uma carácter público, sistemático, e organizado para uma audiência
de pares numa comunidade de prática de investigação) como recai tipicamente
numa forma de actividade matemática escolar que privilegia apenas alguns modos
e formas tradicionais das práticas das comunidades de matemáticos (actualmente
com pouca verosimilhança nalgumas áreas da matemática). Equacionar a melhoria
do desenvolvimento do pensamento matemático dos alunos com base em actividades
de investigação (puramente) matemáticas é deixar de lado as grandes
preocupações da educação para o mundo social em que vivemos. Mas o importante é
que se reconheça que é preciso questionar a natureza das actividades
matemáticas que são realizadas nas comunidades escolares em função dos objectivos
que a escola básica deve ter e re-equacionar os modos de pensar a competência
matemática no mundo social.
A concluir: e como fica o
desenvolvimento curricular em Matemática?
Reflectir sobre a política do
conhecimento no quadro do currículo escolar e da sua organização disciplinar
permitirá realçar e entender o sentido problemático que deve assumir a educação
matemática na escola. A escola reificou a política de divisão disciplinar no
ensino básico e secundário (mas também muito no superior) compartimentação esta
que tem vindo a transformar as disciplinas em compartimentos sem comunicação,
exigindo sistematicamente práticas selvagens (e.g. de interdisciplinaridade e
de criação de áreas transversais). Ao questionar este tipo de organização
curricular (e a lógica disciplinar baseada nas disciplinas tradicionais de
referência como a matemática) questiona-se o tipo de currículo que queremos
implementar – porquê este e não outros tipos de objectivos, actividades, formas
de avaliação, no fundo de práticas. Trata-se de perguntar em que queremos que
os nossos alunos se transformem como pessoas e, consequentemente, que sociedade
queremos construir.
As escolhas curriculares são
eminentemente de natureza política e ética. A discussão das orientações
curriculares em matemática envolve a discussão das ligações entre cultura,
matemática e conhecimento. Tal como já referi, não é demais afastar a
perspectiva (muitas vezes assumida implicitamente) de que o conhecimento
matemático, a cultura e o currículo são neutros, sem intencionalidade,
assépticos, fora de qualquer ligação com o mundo social. Os currículos de
matemática são construções sociais e por isso mesmo são um campo de conflito e
de luta claramente marcada pelas relações de poder. Os professores e os
formadores de professores de matemática estão directamente envolvidos na
disputa que leva à definição dos conhecimentos, dos valores e dos princípios
considerados legítimos para fazer parte dos currículos escolares em matemática.
Pensar nas escolhas que hoje estão feitas em termos curriculares em matemática
em Portugal obriga a assumir que um conjunto de saberes, valores e princípios
se tornou hegemónico. É fundamental pensar também e perceber como outros
saberes, valores e princípios têm sido excluídos dos currículos escolares.
Trata-se de processos de inclusão e de exclusão que foram produzidos no seio de
relações de poder e foram eles próprios produtores de relações de poder – tal
como actualmente a inclusão ou exclusão de orientações nos currículos é um
produto e um produtor de relações de poder. É no quadro da discussão da
política de conhecimento implícita nas práticas da educação que se tem que
encarar as possibilidades de transformação e desenvolvimento curricular na
educação matemática.
A educação como acção política
tem sempre o propósito de mudança no sentido de modificar e melhorar as
condições das pessoas e da sociedade em geral e, por isso mesmo, envolve a
transformação das pessoas e das condições do seu acesso à participação nos
grupos sociais. E essa participação passa necessariamente pelo desenvolvimento
do diálogo social que dá o poder às pessoas para se envolverem em processos de
enunciar problemas, de tomar decisões e de resolver esses problemas. A ligação
preferencial (muitas vezes feita sem total consciência) da ideia de educação
matemática para colmatar de necessidades imediatas ou futuras dos alunos
(identificadas naturalmente pelos professores) ilustra uma concepção muito
restrita de educação e deve ser objecto de reflexão e de discussão. Esse tipo
de formulação da necessidade de educar matematicamente os jovens contém em si
mesmo uma ideia de dependência, isto é, a noção de que existe nos alunos algum
défice psicológico, social, moral ou outro que deve ser “atacado” de alguma
forma. Demasiadas vezes as crianças e os jovens em formação na escola são
definidos como aqueles que ‘ainda não sabem’, ‘ainda não são competentes’,
‘ainda não são’, sendo posicionados pela escola num estado de transição, numa
espécie de limbo e obrigados a esperar enquanto ‘se preparam para a vida’
(Matos, 2004). Esta perspectiva tende a encerrar em si mesma uma ideia da
alunização dos jovens por parte da escola que é contraditória com uma
perspectiva emancipatória dessa mesma escola.
É também essencial perceber quem
está representado nos currículos escolares e nas orientações curriculares, e
mais ainda, como estão representadas as pessoas nesses mesmos currículos. Isso
pode fazer a diferença nos processos de inclusão ou exclusão social a que a
escola está inexoravelmente ligada. É nesta dimensão que a problematização do
desenvolvimento curricular em matemática deve ser colocada em articulação com
políticas de conhecimento claramente assumidas e a partir das questões da
exclusão social e da sua articulação. Para os professores, para os formadores
de professores de matemática e para os investigadores em educação matemática,
ter isto em consideração constitui um contributo para que a escola
eventualmente ganhe sentido e relevância social e contribua para um mundo mais
solidário e mais justo.
Referências
Matos, J.F. (2002). Educação
Matemática e Cidadania. Quadrante, vol.11, 1, pp.1-6.
Matos, J.F. (2004). Educar para a
Cidadania Hoje? Conferência realizada no Seminário Educação para a Cidadania,
Centro de Investigação em Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de
Lisboa, Abril 2004.
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/jfmatos/comunicacoes/CIE_Cidada nia.doc
(acedido em 1 Junho 2005)
Skovsmose, O. & Valero, P.
(2002). Quebrando a neutralidade política: o compromisso crítico entre a
educação e a democracia. Quadrante, vol.11, 1, pp.7-28.
Torres, C. (2001). Escola,
reprodução social e transformação – teses diabólicas ou realidade do quotidiano
escolar. In A. Teodoro (Org.), Educar, promover, emancipar. Lisboa: Edições
Universitárias Lusófonas.
Wenger, E. (1998). Communities of Practice –
learning, meaning and identity. Cambridge: Cambridge University Press.
[1] Além
da função evidente de custódia que a escola básica e secundária tem emerge cada
vez mais a sua função reguladora de acesso na sociedade.
[2]
Veja-se o impacto na opinião pública da divulgação dos resultados do PISA de
2003 que mostram resultados indicadores de aparentes fragilidades dos alunos
portugueses em matemática mas em que não existe uma análise profunda da
estrutura do PISA e disso com aqueles resultados. O discurso mais comum é uma
chamada de atenção aos professores e ao Ministério da Educação para “tratar de
ensinar mais matemática” aos jovens.
[3] O meu exemplo preferido continua a ser o do
famoso engano do Engenheiro Guterres há alguns anos perante as câmaras da
televisão ao efectuar um cálculo bastante elementar através de uma estimativa.
Aquele engano não é obviamente grave do ponto de vista matemático, nem do ponto
de vista do cidadão, a não ser no aspecto em que podia revelar que significava
que ele não tinha uma ideia clara dos montantes envolvidos no assunto que
estava a discutir, isto é, não saberia muito bem do que estava a falar.
[4]
Esta é por exemplo uma opinião bastante unânime na voz de muitos sectores de
empregadores em diversos países europeus.
[5]
Mudar o nome das coisas nunca é só mudar o nome, há sempre algum significado
nessa mudança. Mas mudar o nome de uma área disciplinar (se não se ficar só por
aí) pode ser muito importante para dar sinais aos participantes nas práticas
educativas – alunos, professores, pais. Recordo que em Portugal a disciplina de
Ginástica foi substituída nos anos setenta pela disciplina de Educação Física;
neste caso, muito mais do que uma mudança de nome, tratou-se da introdução de
uma conjunto de elementos que trouxeram uma orientação muito diferente a essa
disciplina através de dimensões tais como a educação motora, saúde e higiene do
corpo, o desporto nas suas diversas componentes, etc.
[6]
Apesar das sucessivas remodelações nas orientações curriculares e dos caminhos
percorridos nos últimos anos, a investigação mostra que mesmo quando existe
inovação nos processos, a avaliação das aprendizagens parece continuar a ser
largamente vista como um processo de legitimar uma dada classificação a ser
atribuída pelo professor a cada um dos alunos. Essa não é obviamente a vocação
e a finalidade da avaliação numa escola que assuma o seu papel constitutivo no
processo de aprender. É tempo de se assumir que as práticas avaliativas que
visam primordialmente a classificação dos alunos apenas contribuem para a sua
seriação e, consequentemente, para a exclusão escolar e social de muitos deles.
[7] É
sempre importante insistir que o dia-a-dia não deve ser entendido como o que se
passa necessariamente fora da escola mas sim como todo o conjunto de
actividades que faz parte da vida diária das pessoas. Para os alunos do ensino
básico, de facto, o dia-adia é muito o viver a escola nas suas múltiplas
dimensões.
[8]
Penso que não se deve desvalorizar os chamados problemas de palavras, ainda
muito típicos nas práticas escolares, sem os substituir por algo mais relevante
(e.g. actividades de projecto). Uma questão isomorfa daquela seria “Uma caneta
custa €1. Quanto custam 4 canetas?” mas a história que envolve o problema (de
palavras) pode ser relevante, quer no caso do problema da viagem em autocarro
quer no caso da compra das canetas. A questão está mais no modo como queremos
posicionar-nos relativamente às finalidades do trabalho que estamos a fazer com
os alunos do que com a pertinência (em abstracto) do problema colocado.
[9] Um
residente em Lisboa que conhecesse a zona perguntaria de imediato “mas porque é
que não vão de Metro, há Metro a ligar o Campo Grande ao Parque das Nações” o
que levantaria outro conjunto de questões ligadas à rede de Metro de Lisboa, ao
modo como cobre algumas zonas da cidade, ao modo como se tem desenvolvido e expandido,
às razões que têm levado a que a expansão da rede seja feita por umas zonas e
não por outras, aos interesses económicos que têm movido algumas decisões nesse
sentido, etc, abrindo um campo de análise em que um ponto de vista matemático
ocuparia certamente um lugar muito importante.
[10] A
universalidade do uso do modelo da proporcionalidade é tremendamente forte nas
sociedades e sobretudo nas actividades comerciais. Encontramos múltipla
evidência da sua utilização ora abusiva ora fraudulenta quando, por exemplo,
damos connosco a pensar que o supermercado nos faz um ‘desconto’ quando nos
propõe a compra de um conjunto de embalagens nas tradicionais promoções “Leve
3, Pague 2” (sem conhecermos obviamente a lógica comercial que esteve
especificamente por detrás da fixação dos preços da promoção). Desmontar e
analisar criticamente este tipo de pensamento matemático primário é um dos
exemplos de elementos que podem integrar uma proposta de uma área disciplinar
de educação matemática.
[11]
Trata-se de uma das lacunas mais fortes que identifico vulgarmente nos
professores de matemática: a total ausência de outras experiências
profissionais (e, em geral, pessoal) em outras actividades que não as
escolares. Caso geral, os professores de matemática nunca saíram da escola
(onde fizeram toda a escolaridade básica e secundária, entraram no ensino
superior, voltaram à escola como professores e muitos regressam à escola superior
para realizar estudos de pós-graduação) tendo por isso um défice enorme em
termos de percepção de espaços e sistemas de actividade com outras lógicas,
outras práticas discursivas, outras formas de vida e outros modos de adaptação
a práticas socialmente organizadas.
O texto expõe de forma ímpar, a diferença entre o ensinar e a educação da Matemática. O professor deve buscar não somente o repasse de conhecimento, mas sim trazer ao discente a educação, trazendo para seu mundo a realidade da Matemática e demonstrando que aquela ciência faz parte da sua própria vivência. O apreender da Matemática acontece justamente na construção do saber em consonância com a realidade, produzindo currículos que estejam dentro da realidade daqueles que devem ser educados. Um importante trecho do texto é demonstrar que a educação da Matemática em conjunto com a realidade, é um poder de transformação da antiga Matemática escolar, para contornos que produzam o ensinamento, mas inserindo na realidade de quem está vivenciado a educação da Matemática.
ResponderExcluirReferências:
Texto: Matemática, educação e desenvolvimento social – questionando mitos que sustentam opções actuais em desenvolvimento curricular em matemática. (Disponível em https://matematicanaeja20202.blogspot.com/2021/03/que-matematica-para-educacao-de-jovens.) Acesso em: 29 mar. 2021.
Excelente.
ResponderExcluirSabemos que os sujeitos da EJA, são para o sistema de ensino, jovens que não concluiram seus estudos na idade adequada, porém estão em busca de aprender, de avançar em sua qualidade intelectual e funcional, por isso retornaram. nesse sentido a rede de ensino precisa estar envolvida nesse processo de desenvolvimento desses alunos, atraindo e estimulando a permanência desses alunos na escola. um currículo adequado desvinculado da educação regular, satisfaz as necessidades desses sujeitos que possuem muita intelogência e conhecimento de vida e que precisa ser valorizado no procusso de ensino. A respeito das dificuldades de aprendizado na área de Matemática. nesse sentido vale para os envolvidos no processo de ensino dos alunos da EJA contribuir na promoção de uma aprendizagem mais efetiva desta disciplina por parte deste público específico.
ResponderExcluirO currículo da EJA no processo de ensino na Modalidade EJA, nem sempre atende as suas demandas no seu processo necessário para formação contextualizada ao mundo do trabalho, e as relações cotidiana.
ResponderExcluirA matemática da forma que é trabalhada dentro do currículo escolar torna-se sem sentido aos interesses dos estudantes, faltando assim uma matemática viva que desperte a curiosidade, desejo ao entender em que se aplica a matemática não apenas para prova e sim para se aplicar a sua vida, pessoal, social, econômica.
O ensino da Matemática para a Educação de Jovens e Adultos deve partir dos conhecimentos dos estudantes, pois, os sujeitos da EJA possui conhecimentos adquiridos ao longo da vida . Aulas conceituais e que não dialoguem com a prática social nada acrescenta ao conhecimento dos estudantes. A matemática para os sujeitos da EJA precisa superar a exclusão que muitas das vezes a disciplina promove na escola.
ResponderExcluirOs adultos não escolarizados aprendem muito através da
comunicação oral, por isso é importante dar-lhes a oportunidade de
“falar de matemática”, de explicar suas ideias antes de representá-las
no papel. A interação com a “fala” de seus colegas ajuda-os a
construir conhecimento, a aprender outras formas de pensar sobre
um determinado problema, a clarificar seu próprio processo de
raciocínio. Devemos também estimulá-los a produzir registros
gráficos e mesmo a “escrever sobre matemática”, por exemplo,
descrevendo a solução de um problema. (BRASIL, 2001, p.101)
Precisamos promover uma educação matemática freiriana que interprete o mundo e que contribua para o desenvolvimento crítico da realidade opressora em que vivemos, poir isso o ensino da matemática deve propor situações didáticas desafiadoras e que reflita as transformações que desejamos para a sociedade.
Lorena Bárbara Santos Costa
Texto: Matemática, educação e desenvolvimento social – questionando mitos que sustentam opções actuais em desenvolvimento curricular em matemática. (Disponível em https://matematicanaeja20202.blogspot.com/2021/03/que-matematica-para-educacao-de-jovens.) Acesso em: 15 de abril de 2021.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Educação para Jovens e Adultos: ensino
fundamental: proposta curricular -1º segmento / coordenação e texto final (de) Vera
Maria Masagão Ribeiro; — São Paulo: Ação Educativa; Brasília: MEC, 2001.
O texto fomenta a realidade de que a matemática tem sido objeto de discursos democráticos mas na prática ela excluí diariamente crianças, jovens e adultos . Rotulados os sujeitos escolares em aptos e não aptos nivelando neste sistema capitalista o sabem, podem e acumulam riquezas e os que não sabem ,são explorados e convivem com a negação de direitos essenciais à vida digna.
ResponderExcluirDestaca a criação de uma cultura de educação matemática visando a participação dos jovens em uma sociedade democrática.
Alerta sobre os números produzidos nos espaços escolares e que colaboram para a exclusão social de diversas situações para um números elevado de pessoas em nossa sociedade . Sendo importante reconhecer o valor ético, social e político do ensino da matemática onde tão claramente não existe a neutralidade de conhecimentos, de saberes. Sendo crucial que o educador matemático análise essas questões em sua trajetória profissional,pois os saberes, valores e princípios devem permear o currículo da matemática.
Referências:
Texto: Matemática, educação e desenvolvimento social – questionando mitos que sustentam opções actuais em desenvolvimento curricular em matemática. (Disponível em https://matematicanaeja20202.blogspot.com/2021/03/que-matematica-para-educacao-de-jovens.) Acesso em: 29 mar. 2021.